pela Deputada Luísa Mesquita
1.03.2006
Senhor Presidente
Senhoras Deputadas
Senhores Deputados
A definição e a execução de qualquer medida política por mais restrita que possa parecer implica por parte de quem governa – competência e esta só se adquire com o conhecimento.
Naturalmente que a ausência de ambos não pode disfarçar-se durante muito tempo com o autismo, a arrogância e o autoritarismo.
Primeiro porque são disfunções comportamentais que, pela reincidência, se evidenciam; segundo porque as técnicas do disfarce, vulgarmente enunciadas na política pelo faz de conta, têm sempre os dias contados.
Mas há áreas que pela sua importância estratégica para o ser humano, enquanto cidadão individual e para a sociedade no seu conjunto deveriam possuir sistemas de imunidade que impedissem os responsáveis pela acção política de concretizar verdadeiros atentados ao desenvolvimento.
A educação é exactamente uma dessas áreas. Chegam e partem os ministros sem que se conheça o projecto educativo que tinham ou têm para o país.
Falam de qualificação há décadas.
Anunciam combates contra o abandono e o insucesso, reduzindo-os ao espaço da escola.
Culpam pais e professores das políticas que os próprios gizaram.
Defendem exames desde a mais tenra idade porque as crianças e os jovens não estudam, nem trabalham.
Fazem e desfazem circulares, portarias, decretos e leis sempre e só com um único objectivo – deixar a chancela de quem acabou de chegar e apagar a existência de quem acabou de sair.
E neste insano trabalho, não admite o Governo, o ministro que é primeiro ou a ministra, que, talvez, só por uma vez, não sabem tudo das escolas, dos alunos e dos pais.
Se o voluntarismo é sempre perigoso, em política e na educação é um verdadeiro desastre.
Mas não é a educação que preocupa o Governo. O sistema educativo é um mero instrumento, enquanto serve como cenário para anunciar medidas que tão cedo não serão avaliadas e que de forma ligeira e aritmética se transformam em estatística.
O ensino do inglês no 3º e 4º anos do ensino básico foi repetentemente anunciado.
Diz o Governo que a cobertura é quase total. Não é verdade.
Hoje sabe-se que muitas crianças, pelo simples facto desta área disciplinar ser extra-curricular e por isso facultativa, não a frequentam. Para além disso a organização existente nas escolas do 1º ciclo do ensino básico condicionou os horários do ensino da língua inglesa em tempos e espaços incompatíveis com a vida das famílias. Mas não só. Hoje também já se sabe que esta oferta em muitas escolas públicas ou é privatizada ou transferida para a tutela autárquica.
O Estado desresponsabiliza-se totalmente pelos processos de ensino-aprendizagem.
Mas ao Governo o que interessa são os números e a diminuição dos recursos humanos e financeiros.
A qualidade é para os governantes uma nota de rodapé.
Recentemente, uma professora destas “inovadoras” aulas de inglês, contratada verbalmente e à hora por uma empresa, cuja sede se situa entre Odivelas e Funchal e que nem o contrato verbal cumpria, denunciou as irregularidades à respectiva autarquia, neste caso Amadora.
É, no mínimo interessante, a resposta que obteve e que passo a citar:
“Não temos nada a ver com o assunto, isso é com a sua entidade patronal”; “Nós pagamos as aulas aos professores como pagaríamos qualquer produto ou serviço – aglomerado de madeira… ou… uma dúzia de ovos”; “A única coisa que nos interessa é que as coisas funcionem pedagogicamente”.
Mas as soluções sérias e não discriminadoras eram possíveis, se o Governo quisesse.
Os agrupamentos de escola reúnem condições para garantir a leccionação desta área dentro do âmbito curricular e por isso de acesso para todos os alunos. E se houvesse necessidade, a escola poderia recrutar docentes, dos milhares que estão desempregados e profissionalizados.
Senhor Presidente
Senhoras Deputadas
Senhores Deputados
Mas o mais preocupante voluntarismo da governação está em curso.
É o abate indiscriminado das escolas do 1º ciclo do ensino básico e dos Jardins-de-infância.
Todos os métodos são válidos.
Desde faltar à verdade até ao incumprimento da Constituição da República Portuguesa.
O encerramento de escolas não se iniciou com este Governo.
Este processo decorreu, durante alguns anos, sem grandes sobressaltos e sem desrespeito pela comunidade educativa e pelas autarquias.
Entretanto, o Governo anterior decidiu criar agrupamentos na 5 de Outubro, contrariando a legislação em vigor.
Decretaram-se armazéns de milhares de alunos e agruparam-se centenas de escolas.
O objectivo, dizia o Governo, era permitir melhores condições de trabalho e acabar com escolas de quadro e giz.
Nada menos verdadeiro.
As responsabilidades aumentaram mas as exíguas contrapartidas financeiras e humanas mantiveram-se.
E as autarquias, resolveram como puderam, às vezes mal, os transportes, as refeições, os auxiliares de acção educativa, as actividades extra-curriculares, a acção social escolar e tudo o mais que era preciso.
E os Governos o que fizeram?
Acusar as autarquias de endividamento e puxar-lhes o tapete do financiamento.
Mas os contornos da extinção que está em curso das escolas do 1º ciclo ultrapassam e muito as razões tornadas públicas.
Disse o Governo que seriam 500, depois 1.000, logo em seguida 4.000 e recentemente 4.500 até ao fim desta legislatura.
Disse o Governo que seriam exclusivamente escolas com insucesso escolar superior à média nacional.
Disse o Governo que só seria encerrada uma escola desde que existisse alternativa com condições.
Disse o Governo que seriam encerradas escolas com 10 ou menos alunos.
Mas o mais grave o Governo não disse.
O que o Governo não disse é que 4.500 escolas encerradas até 2009, significa mais de 60% das escolas básicas do 1º ciclo que funcionam em 2005/2006.
O que o Governo não disse é que o sucesso e o insucesso das crianças não será determinante.
Há escolas com 100% de sucesso que vão ser encerradas.
O que o Governo não disse é que serão encerradas milhares de escolas com mais de 10 alunos.
O que o Governo não disse é que não ouviu a maioria das escolas, dos agrupamentos, das autarquias, dos pais e dos professores.
O que o Governo não disse é que o concurso de colocação de docentes que decorre neste momento já não conta com os milhares de escolas que segundo o Governo deverão encerrar, independentemente da vontade e da opinião de todos os outros interlocutores que, para o Governo, não existem, mas que a Senhora Ministra, diz ouvir, naturalmente depois da porta fechada.
O que o Governo não disse é que em primeiro lugar as escolas são encerradas, os professores ficarão com emprego ou não e as crianças seguirão para uma escola de acolhimento, tipo adopção, havendo ou não melhores condições de aprendizagem.
O que o Governo não disse é que esta medida também irá ser tomada para os Jardins de Infância.
E antes que algum senhor deputado mais descrente possa considerar esta medida do reino de Ionesco, passo a ler um esclarecimento de uma Direcção Regional dirigido a todos os Conselhos Executivos de Agrupamentos de Escolas:
“À semelhança do que está a ser feito com a rede do 1º ciclo do ensino básico, pelas mesmas razões e pretendendo atingir os mesmos objectivos, estamos também empenhados na requalificação da rede da educação pré-escolar, considerando que, quando confrontados, em muitos casos, com reduzidas frequências, julgamos não estar a contribuir para o sucesso educativo das gerações vindouras.”
Claro que a informação não fala de transportes, nem reflecte sobre as consequências sócio-afectivas e sócio-pedagógicas destas crianças de 3, 4 ou 5 anos.
Claro que a informação não propõe que os pais e encarregados de educação sejam ouvidos.
No entanto, esclarece que todo o processo deverá estar concluído até 31 de Março.
Mas o que o Governo não disse também é que o abate das escolas públicas do 1º ciclo do ensino básico, segundo informações veiculadas também pela administração regional de educação, será realizado violando as mais básicas noções pedagógicas e contrariando a Constituição da República Portuguesa e a Lei de Bases do Sistema Educativo.
Propõem-se transferências compulsivas de alunos do 1º ciclo para as escolas básicas do 2º e 3º ciclos e de alunos deste último ciclo para as secundárias.
Um movimento que se denomina em “cascata”, sem a mínima referência ao processo de deslocação dos alunos e dos docentes, ao funcionamento das escolas e à obrigatória alteração do seu quadro de pessoal.
O objectivo é claro. Concentrar o maior número de alunos no menor número de estabelecimentos de ensino com o mínimo de professores e outros trabalhadores.
Em momento algum se equaciona sequer a qualidade da resposta educativa ou da melhor solução para as crianças e para os jovens atingidos por tão grande e manifesta maldade.
Ficamos também a saber que para o Governo socialista não há escola pública e escola privada.
Ficamos também a saber que para o Governo socialista há uma nova nomenclatura – os operadores educativos estatais e ou privados com iguais responsabilidades na rentabilização máxima dos equipamentos.
Ficamos também a saber que será possível que um aluno seja compulsivamente colocado numa escola privada, ainda que a família pretenda que ele frequente uma escola pública.
Percebe-se assim muito melhor o que significa para o Governo socialista a requalificação do 1º ciclo.
Encerra escolas públicas e promove a abertura de escolas privadas, desrespeitando a Lei de Bases do Sistema Educativo e o texto constitucional que no seu artigo 75º obriga o Estado a criar “uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população”.
Não está em causa a necessidade de reestruturar a rede escolar.
Mas não é este o objectivo do Governo e por isso optou por uma solução de formato único.
O que está na génese deste movimento são opções meramente economicistas de encerramento de serviços públicos, inspiradas na tese de menos Estado, melhor Estado.
E nesta azáfama neo-liberal vale tudo.
É o desrespeito pelas cartas educativas dos Concelhos.
Pelos planos estratégicos de desenvolvimento das regiões.
Pelas estratégias de combate à desertificação que muitas autarquias estão a concretizar, diversificando os pólos de atracção do seu território.
É o agravamento das assimetrias do país, sobretudo no interior.
É a promoção do desenraizamento territorial e familiar das crianças.
É por isso que afirmamos que todas as decisões tomadas nesta área têm que resultar de um debate democrático que envolva as autarquias, as populações e as comunidades educativas. A técnica do quero, posso e mando pode disfarçar mas não esconde tudo.
Disse.